terça-feira, 7 de junho de 2005

Como falei no post passado, estamos de mudança programada. Ainda não assinamos os papéis mas a casa já está reservada. É uma casa pequena, bem menor do que essa, e por isso temo que João vá sofrer um pouco com a falta de espaço. Bem, melhor não começar a me preocupar com isso agora. Não tenho nada encaixotado mas já avisamos ao proprietário da casa em que estamos agora de que vamos embora, já fizemos o acordo quanto à rescisão do contrato de locação e já avisamos aos poucos amigos que fizemos aqui.

O chato dessa tentativa de arrombamento foi que ficamos presos em casa. O seguro ainda não mandou consertar a janela e ficamos com medo de deixar a casa sozinha e os mesmos ladrões burros tentarem, pela terceira vez, levar nossas parcas e preciosas coisinhas. Três semanas de clausura. Isso vale pra mim, é claro, pois meu marido e meu filho continuaram com suas atividades normais. Eu não. Fui nomeada guardiã invencível do nosso lar e tenho que passar meus dias aqui plantada, esperando a hora da mudança chegar.

Acredito que vocês, caros amigos, devem fazer idéia do tédio em que minha existência se tornou. Já era complicado não fazer muito além dos afazeres domésticos e das minhas atividades físicas esporádicas, agora então, a coisa virou um verdadeiro desafio. Tenho tentado me concentrar e estudar um pouco, estudar qualquer coisa, mas não adianta muito: sempre me pego distraída, pensando no que eu poderia estar fazendo se não estivesse aqui plantada, esperando a hora da mudança chegar.



Minha faxineira-anjo-da-guarda Bia decidiu que não vai mais voltar pra Campinas. Vai ficar lá no Rio mesmo, a coitada. A sorte é que ela tinha me deixado Márcia, irmã dela e minha faxineira-anjo-da-guarda reserva. Márcia agora não só é minha faxineira-anjo-da-guarda titular, como também é babá de João toda sexta à noite, quando eu e Guiom compramos nossa carta de alforria e podemos finalmente cair na naite depois de meses e meses de seca. De brinde, João ganhou um amiguinho: Gustavo, sobrinho da Márcia, que sempre vem passar a noite aqui com ela. E assim todos são felizes para sempre!



No quesito ficção, minhas leituras estacionaram em "A Morte em Veneza", de Thomas Mann, que eu engatei logo que terminei "Tonio Krueger", dele também. Não é que eu não tenha gostado do livro, até que gostei, mas a questão é que minha atenção foi desviada para outros gêneros literários, digamos assim. Mas isso é assunto pra um outro post.



Como agora eu sou uma pessoa que voltou a ir ao cinema, posso comentar o que andei vendo em telas grandes. "Cruzada" foi um tanto previsível; não é um filme péssimo; tem boas locações, boas atuações, o bonitinho do Orlando Bloom, a bonitona da Eva Green... mas é meio repetitivo. Saí da sala com a impressão de que tinha visto o mesmo filme pela sétima vez. Já "Star Wars - Episodio III - A Vingança dos Sith" teve outro impacto; não é um filme perfeito; tem atuações ruins, diálogos ruins, tem a Natalie Portman, que não convence ninguém como grávida... mas é bacana. Saí da sala emocionada com a cena da máscara negra sendo colocada no Anakin, e olha que eu não sou exatamente uma fã da série. Ah, um PS: Guiom ganhou de presente uma caixa com os episódios IV, V e VI mais um disco de extras. Bom demais, né não? O chato é que não tem legendas em português...



Tenho ouvido um pouco de música francesa pra variar. Mais especificamente o cd "Le Jour de Clarté" de Graeme Allwright. O disco todo é bom, uma grande mescla de estilos, mas linda de morrer mesmo é a música "Petit Garçon", que Guiom adora e que acaba me comovendo também.



Ontem falei por telefone com minha querida prima Raquel, que está grávida de sete meses de Mateus (que deve nascer enquanto estivermos em João Pessoa! (eba!)) e com minha mais que querida prima-afilhada Jéssyca, que segundo minha mãe está "uma mocinha". Fiquei superhiperultramastermega feliz, mas fiquei ainda mais saudosa... Ainda bem que dia 2 de julho tá quase chegando, né não?



João, o popular, vive sendo convidado para festinhas ou para passar o dia na casa dos amiguinhos. E é claro que vive também convidando amiguinhos para passar o dia aqui. Já era assim em João Pessoa, mas a diferença é que agora os amiguinhos são, em sua maioria amiguinhas. Tem a Julia, de quem já falei (ela já veio passar o dia aqui e João já foi passar o dia lá), a Mariana (que também já veio passar o dia aqui) e a Bruna (que convidou João pra passar o dia na casa dela na próxima sexta-feira). É, parece que a fase clube-do-bolinha finalmente passou.

As discussões filosóficas a respeito da existência humana têm rendido bastante aqui em casa. Esse foi o dialogo de ontem à noite (eu na cozinha, fazendo o jantar, João no meu pé, como sempre):

- mãe, é verdade essa estória de que os humanos são animais?
- é.
- mas os humanos são muito diferentes dos animais!
- é, os humanos são animais racionais e os outros são animais irracionais.
- como assim?
- os humanos pensam, raciocinam, os outros não.
- e como é que eles comem, andam, essas coisas?
- eles fazem as coisas por instinto.
- como assim?
- eles fazem as coisas porque são programados pra fazer.
- quer dizer que eles não fazem as coisas porque querem?
- não.
- peraí, eu sou humano, né?
- é.
- então eu sou racional.
- é.
- então eu faço as coisas porque eu quero.
- eh... é.
- então por que eu preciso tomar sopa todo dia se não é isso o que eu quero?

quarta-feira, 1 de junho de 2005

Post sim, post não, faço propaganda de um fotolog. Dessa vez é o meu. Não pude resistir à tentação e criei um. "Bruno vai morrer de me xingar", pensei comigo. Tou nem aí, viu, Brunito? Sei que até mesmo você vai acabar aparecendo por lá. Afinal essa é uma boa forma de compartilhar imagens (atuais ou não) nossas com todo mundo que está longe da gente.

Vai lá!

Que mundo pequeno! agora em imagens!

terça-feira, 24 de maio de 2005

Ser mãe é um troço bacana mesmo. Eu sei, o espírito do dia das mães passou faz tempo; eu sei, dia das mães é uma coisa superhipermastermega comercial; eu sei, eu já enchi o saco de todo mundo com a conversa sobre filhos do post passado. Não, eu não vou falar sobre como ser mãe é um troço bacana mesmo. Só queria dizer que eu adoro ganhar flores e presentes fofos, principalmente quando nem é meu aniversario.

Mais de um post em menos de um mês. Um recorde para os padrões desse pequeno mundo. O negocio é que eu ando com tempo livre. Tempo livre demais. Tempo livre é um sonho, um paraíso. Todo mundo vive buscando o tal tempo livre. No meu caso, tempo livre é uma merda. Tempo livre oriundo do desemprego, esse maldito. João e Guiom passam o dia fora de casa e eu passo o dia sozinha, em casa. Não é que eu não tenha o que fazer, claro que tenho. Donas de casa sempre têm coisas pra fazer aos montes e aqui em meus domínios, roupa limpa e comida fresca é lei. O pior de estar desempregado não é nem o fato em si, é o olhar enviesado da sua mãe e do seu marido, as pessoas às quais você passa a dever a sua alma.

Minha faxineira-anjo-da-guarda Bia viajou pro Rio. Foi passar uns tempos lá, lagarteando, a coitada. Quase morro intoxicada de inveja. E quando você começa a quase morrer intoxicada de inveja da sua faxineira, é hora de parar e pensar no que esta errado.

Pela primeira vez em minha vida eu enfrento o dilema que eu sempre quis enfrentar: dentre tantas opções de programas culturais, quais escolher para o próximo fim-de-semana? Estou comendo as unhas de dúvida, mas nunca minhas unhas foram tão saborosas. Enfim morar no Sudeste começa a fazer sentido pra mim, e já não era sem tempo.

Sábado dia 14 foi aniversário de Guiom e decidimos ir visitar duas exposições em São Paulo. A primeira do escultor inglês Henry Moore, em comemoração aos cem anos da Pinacoteca do Estado de São Paulo. A segunda, no MAM do Parque Ibirapuera, do acervo de Roberto Marinho, que conseguiu colecionar grandes obras dos principais artistas brasileiros do século XX. Eu nunca, ou raramente, falo aqui dos micos que pagamos, mas essa viagem teve trapalhadas tão absurdas que decidi compartilhar nossas aventuras com vocês, caros leitores.

Pra começo de conversa, nós, como qualquer pessoa normal, na minha humilde opinião, sempre nos perdemos em São Paulo. Tudo bem ate aí. O negócio complica porque Guiom, como todo homem normal, na minha não tão humilde opinião, detesta pedir informação ou encostar o carro pra examinar melhor o mapa. O mapa, é claro, fica sempre comigo, que não sou lá muito boa em orientação espacial, caso contrário não teria largado a faculdade de arquitetura no segundo semestre. Além de desorientada eu sou míope, o que me leva a precisar chegar o mapa pra perto dos olhos, senão eu não vejo porra nenhuma mesmo. Aí meu próprio marido tem uma síncope: daquele jeito, todo mundo vai ver a placa de João Pessoa do carro, a cara dele de gringo e a minha cara desolada diante do mapa de ruas de São Paulo e então vão assaltar, seqüestrar e matar os turistas. Um verdadeiro drama; e assim seguimos rodando pela cidade toda até conseguir chegar em algum lugar. Enfim, perto do meio dia chegamos na Pinacoteca. Vimos a mostra do Henry Moore em mais ou menos uma hora. João amou tudo, mas reclamou que as esculturas não eram coloridas (é uma criança exigente, sabe?). Na saída ficamos com fome. Pra não pagar dez reais por um pf naquela cidade inflacionada, levamos sanduíches e frutas na mochila. Meu plano era sentar no jardim da Pinacoteca e fazer um piquenique. Mas era sábado e o jardim estava cheio de gente com cara esfomeada. Então, meu próprio marido e meu próprio filho, assim, sem a menor cerimônia, sentaram no café chiquérrimo da Pinacoteca, cheio de gente intelectualizada e chiquérrima, abriram a mochila e puseram-se a comer o pão francês enrolado no papel bege da padaria. Momento-cara-no-chão. Fiz o que me pareceu correto fazer: dei um chilique, fiz um escândalo discreto pra não chamar ainda mais atenção, disse que não conhecia nem um dos dois e fui comer lá do outro lado, no jardim, com os esfomeados em volta e tudo. De lá fomos no MAM. O parque tem um lago cheio de patos, cisnes, garças e peixes espertinhos que só faltam falar pra pedir a comida da galera que fica relaxando na grama; em cima do lago tem uma ponte cheia de gente boba alimentando os animais espertinhos. Subimos na ponte e meus dois malas de estimação pediram comida pra jogar pros bichos espertinhos também. Dei uma bolacha só, pra não compactuar com aquilo. E me distraí, olhando o horizonte. Quando olho pros malas, estão os dois cuspindo no lago e morrendo de rir com a idiotice dos bichos que corriam ou voavam ou nadavam pra comer o cuspe deles. Momento-mais-cara-no-chão-ainda. Fiz o mesmo que da primeira vez: dei um chilique, fiz um escândalo não tão discreto, disse que não conhecia nem um dos dois de novo e sai de perto. Entramos no MAM e começamos a ver as obras. Mas aí já eram quatro da tarde e João estava de saco cheio de desenhos, pinturas, esculturas, instalações e afins. Meio emburrado, sentou num canto de parede esperando a hora de ir embora. Vi quando Guiom chegou perto dele para acalentá-lo e desliguei o modo mãe-alerta. Quando olhei em volta, cadê os dois? Entrei em pânico, interroguei todos os seguranças, alarmei todos os guias, funcionários, visitantes, Deus e o mundo. Chorei, chorei, berrei, berrei, e lembrei de dar mais um volta no museu. Quando cheguei no ultimo espaço notei que havia uma salinha exibindo um documentário. Entrei na salinha de cara inchada e dei de cara com os dois, sentadinhos , quietinhos, tranquilinhos. Dei um chilique gigante, fiz o escândalo-mor e nem me dei ao trabalho de dizer que não conhecia nenhum dos dois, fui embora do museu com eles correndo atrás de mim e todo mundo me olhando com uma cara de como-assim-os-dois-estavam-lá-o-tempo-todo-e-ela-não-viu-?. Passaram dois dias pedindo desculpas, mas até agora tenho raiva quando lembro. Falta de noção é um item em excesso nessa família.

Se eu disser que João ficou curado vou estar mentindo. Ele não teve mais febre, mas ainda tosse e vomita de vez em quando. Acabei de dar a ele o oitavo remédio desde que essa crise de sei lá o que começou e não sabia mais o que fazer, até que, conversando com as mães e professoras da escola, me disseram pra tentar inalação. Santo remédio! Foi a única coisa que conseguiu fazer aquela tosse de cachorro ceder um pouco. Já tinha levado o coitado ao hospital quatro vezes e, como aquela criatura é o Senhor Sociabilidade, todo mundo lá conhece a gente agora. Aliás, todo mundo de todos os lugares que a gente freqüenta conhece a gente por causa de João. Quando crescer vai ser vereador o menino.

Nossa atual querela com ele é deixar ou não que ele pegue o sotaque campineiro. Sim, porque, depois de cinco meses aqui ele já fala canetchinha (em vez de canetinha) e poreta (em vez de porta). Preciso nem dizer o que eu penso sobre o assunto, né? Por outro lado é preciso deixar que ele tenha liberdade pra falar como quiser, e falar como as crianças daqui é uma forma de se igualar a elas e inserir-se no grupo.

Tenho visto muitos filmes bons mas não estou exatamente a fins de fazer uma lista, por isso só vou falar de dois: "O Retorno" e "Bem-me-quer, Mal-me-quer". O primeiro é russo, sombrio, mítico e tem uma fotografia tão linda que chega a assustar. O segundo é francês, aparentemente leve, aparentemente colorido e me surpreendeu com a reviravolta na narrativa. Recomendo os dois, mesmo pra quem não simpatiza muito com o cinema russo ou com o francês.

Desde o dia 8 só escuto um cd: "Essa Boneca Tem Manual" de Vanessa Da Mata, que eu queria há um tempão e finalmente ganhei (ser mãe é um troço bacana mesmo). Vanessa tem uma voz poderosa e suave, e a criatividade de suas composições me faz lembrar minha amada Marisa Monte.

Domingo dia 15 aconteceu uma coisa sinistra: arrombaram de novo a janela da sala daqui de casa. Foi a segunda vez em pouco tempo e dessa vez fizeram um estrago grande. Como eram os mesmos ladrões burros da primeira vez, eles quebraram o vidro e o cadeado e entortaram tanto a estrutura de ferro que não conseguiram entrar e não roubaram nada. Tivemos sorte de novo mas não queremos ficar aqui pra ver um terceiro arrombamento, dessa vez quem sabe, mais bem sucedido. Já começamos a providenciar nossa mudança. Achamos uma casa num condomínio perto daqui, bem menor mas bem mais segura. E pra nos convencer de que é mesmo preciso ir embora, descobrimos que as duas casas da frente são um terreiro de macumba e uma boca de fumo. Nada especificamente contra macumbeiros e traficantes, que não quero entrar no mérito da questão, o caso é que meu marido francês não quer mais morar aqui de jeito nenhum.

Eu já falei da minha viagem aqui? Se não falei vou falar, é bom que todo mundo fica logo sabendo: chego em João Pessoa dia 2 de julho e só volto pra cá dia 8 de agosto. Bom demais, né não? O melhor de tudo é que vou assistir dois casamentos importantíssimos: o de Patrícia e Fabien (que já são casados em solo francês, mas querem fazer uma festinha brésilienne; que moram hoje na Guiana Francesa mas estão mexendo as anteninhas pra sair de lá; que são nossos padrinhos de casamento e estão grávidos!) e o de Isabella e Anderson, o casal mais centrado da zerozeroum (que além disso é o casal mais imbatível em termos de jogatinas quaisquer). Eu e João estamos contando as horas pro dia da viagem chegar...

quarta-feira, 11 de maio de 2005

Só pra fugir da regra (e enquanto meu sócio Bruno não organiza os links por aqui): a zerozeroum (codinome da nossa turma de faculdade, e agregados) tem um fotolog comandado por Milena Má. Quase todo mundo que passa por aqui tá lá, por que vocês não dão uma espiadinha?

Fotolog Zerozeroum e Ilustres Agregados

quarta-feira, 4 de maio de 2005

E então, de repente, sem mais nem menos e com o desespero típico das grandes catástrofes naturais, eis que pousa nada suavemente sobre nós um frio colossal. Eu ando me virando bem, com meus casaquinhos e minhas poucas experiências com baixas temperaturas. Meu pequeno João, no entanto, sofre. Comprei um monte de roupas quentinhas pra ele, mas não adiantou: quarta-feira eu e Guiom saímos de casa às sete da manhã para levá-lo ao hospital com uma febre de quase quarenta graus. Tomamos um susto quando a pediatra de plantão nos alertou para o risco de pneumonia. Meu coração parou por um longo instante. Senti os pés dormentes e vi as paredes girando ao meu redor. ¿Quero ir embora daqui¿ pensei na hora, quase sem querer. Quero mesmo, não é segredo pra ninguém. Nesse longo instante de delírio, eu quis mais do que nunca. Com os remédios, os cuidados, o repouso, João está melhor, mas ainda tosse muito. Estamos com medo, mas não há muito que possamos fazer além do que já fazemos.

Pior coisa da vida é ver filho sofrer. Imagine a pessoa que você mais ama no mundo. Agora imagine que você a ama muitas vezes mais. Então imagine ela sofrendo sem que você possa fazer muita coisa. Imaginou? Agora responda: você agüenta? Se agüenta, parabéns! Você já pode ter um filho! Ter um filho é isso. É mais do que enlouquecer e se emocionar todo dia. É ver a pessoa mais preciosa do mundo sofrer e não poder fazer nada às vezes. Primeiro porque às vezes você não pode fazer nada mesmo; segundo porque é preciso deixar sofrer, pois é sofrendo que a gente cresce.

Eu queria ter outro filho. Guiom acha que não temos estrutura financeira. Ele acha também que não tem estrutura emocional. Eu respeito. Tem gente que acha que para ter um filho é preciso somente grana, tempo, paciência e amor. Não é pouco, mas tem mesmo gente que acha que é só. E erra feio.

Ter um filho exige uma coisa que pouca gente tem e menos gente ainda está interessada em adquirir. Ter um filho exige desprendimento. O amor é a coisa mais importante. Mas, assim como não é o amor que segura um casamento, não é o amor que te habilita a ter um filho e criá-lo dignamente. Ter desprendimento é saber que seu filho é uma parte de você, mas que é uma parte de você fora de você, que um dia, vai levantar e sair andando pelo mundo com as próprias pernas. Ter desprendimento é saber que, embora seu filho sempre vá ser uma parte de você, ele é uma outra pessoa, com outras idéias e outros caminhos. Ter desprendimento é saber que seu filho dificilmente vai ser a pessoa que você gostaria que ele fosse, ou a pessoa que você queria ter sido e não foi. Ter desprendimento é amar o seu filho não importa quem ele seja; ou, quem sabe, não amar, e não se sentir culpado por achar que tem a obrigação de amar alguém que você despreza, só porque esse alguém é seu filho.

O problema é que quase todos os pais e mães que eu conheço não têm esse desprendimento. Minha mãe não tem. Ela me ama mais que tudo e eu a amo também e ela é uma mãe ótima. Mas desprendimento, esse de que eu falo, ela nunca teve. Sempre quis que eu fosse diferente. Mais alegre, mais convencional, mais gorda. Adiantou? Não. Tudo o que ela conseguiu foi que eu crescesse culpada por frustrar as expectativas dela. E olha que não eram poucas, visto que eu sou uma filha única que nasceu depois de um tratamento de fertilidade de seis anos, visto também que ela perdeu outros dois filhos em dois abortos terríveis que traumatizaram a família toda, visto ainda que ela perdeu o marido quando a filha do casal (essa que vos escreve) tinha apenas nove anos. Não foi fácil pra mim, mas pra ela deve ter sido um inferno. Eu entendo o quanto eu decepcionei; mas entendo também que eu não poderia ter deixado de engravidar aos dezoito anos, ter deixado de me casar com um estrangeiro tão esquisito quanto eu porque ele é o cara que eu amo, ter deixado de abandonar o curso de direito na metade porque eu odiava aquilo lá. Não poderia ter vivido uma vida que não era a minha só porque era a vida que minha mãe planejou pra mim. Eu fui a rainha da rebeldia sem causa na minha adolescência. Hoje eu sei que tudo o que eu queria era ser livre pra escolher. E eu fui livre, de certa forma, não posso dizer que não fiz minhas escolhas, porque eu fiz sim. Mas eu briguei muito por causa delas, e eu acho que eu não precisaria ter brigado tanto se a minha mãe tivesse compreendido o que se passava no meu coração.

Não sei como vai ser quando João crescer. Talvez ele escolha um caminho que seja totalmente contrário a tudo em que eu acredito, a tudo o que eu respeito. Se isso acontecer, eu espero sinceramente que nosso bom senso providencie toda a tolerância de que a gente precisar pra sobreviver, seguir em frente e ser feliz.


terça-feira, 19 de abril de 2005

Enfim faz calor em Campinas. Faz, na verdade, um calor terrivel, que não fica devendo nada ao calor do Nordeste. Parou de chover mas às vezes faz frio. Um clima louco, resumindo. Eu tento me acostumar e não reclamar muito, pois dizem que em um mês vai começar a nevar por aqui¿

João, o deslumbrado, ama tudo. De manhã, saindo pra escola, ele precisa usar um casaco por causa do vento gelado. E ele descobriu que ama usar casaco. Ao meio dia, quando chega da escola, ele precisa tomar banho no jardim porque a água do chuveiro é aquecida. Preciso nem dizer que ele ama tomar banho no jardim. No nosso jardim há cinco pés de acerola, que não pararam de dar frutos desde que a gente chegou aqui. A terra é preta e muito fértil. Aí já viu, João redescobriu sua relação com a natureza e vive de apanhar acerolas e plantar mudas ou sementes em potinhos de plástico. Nosso problema é com a fauna que prolifera abundante ao nosso redor : mosquitos de todos os tipos, baratas, ratos, sapos e, horror dos horrores, aranhas e cobras. A situação é tão crítica que até cogitamos a possibilidade de mudar de casa¿

Mas é facil deslumbrar-se aqui, principalmente para uma criança vinda de João Pessoa. Os parques são enormes, as livrarias são enormes, as videolocadoras são enormes, os shoppings são enormes ; tudo é bacana, limpo e organizado. Queria eu também estar deslumbrada com as coisas, mas infelizmente não sou muito impressionável e continuo querendo voltar correndo pra minha terra.

Guiom anda de saco cheio do trabalho, do calor, do Brasil. Em julho, enquanto eu estiver em João Pessoa, ele vai passar duas semanas na França, e eu sinceramente espero que ele mate a saudade de tudo lá, e volte um pouco mais animado, caso contrário, nossa ida para Paris virá bem mais cedo do que todo mundo imagina¿

Na última sexta-feira eu e João fomos passar a tarde na casa de uma amiguinha dele, a Júlia. Alias, a Júlia é a nova paixãozinha do João, os dois vivem grudados e se dão super bem. A tarde no condomínio onde ela mora foi ótima e nos divertimos pacas. Na casa dela tem uma cama elástica grande e eu e João fizemos a farra; depois fomos (com a Júlia, a mãe dela e as irmãs) pra piscina do clube que fica dentro do condomínio, e, farra mais uma vez. Depois fomos ao happy hour na casa dos vizinhos, com direito a vinho e tudo o mais. Conheci uma americana, a Jody, casada com um francês, e ela contou que os filhos dela, de cinco e três anos, falam inglês, francês e português. Ah, eu esqueci de contar que os pais da Júlia também falam em inglês com ela e as irmãs, de dez e doze anos (eles moraram sete anos nos EUA). Quando a Eneida (a mãe da Júlia) e a Jody me pergutaram se eu e Guiom falávamos em francês com João, eu respondi que não e fiquei me sentindo a maior ET. Mas, analisando bem, não é um pouco louco uma criança pequena falar três línguas ao mesmo tempo ?

No sábado foi o dia da entrevista da professora do João com os pais de cada criança individualmente. Ela falou mais ou menos o que eu já sabia : que o João conseguiu ser bem inserido e aceito no grupo (ufa!), que ele tem uma memória boa e uma criatividade fenomenal e que o problema com ele é que ele detesta perder numa argumentação. Aí fiquei pensando se isso não era um pouco culpa minha, pois toda vez que ele diz uma frase inspirada eu caio na risada achando aquilo o máximo, e não me preocupo muito em convencê-lo do contrário se ele está errado.

No domingo achei um site da escritora Sônia Hisch. Eu conheci a Sônia por indicação da minha amiga - irmã Lumy, que tem o "Só Para Mulheres", o melhor livro dela. Sônia escreve sobre a arte de viver bem a vida, o que inclui conselhos mais que úteis sobre alimentação, respiração, meditação, atividades físicas e saúde sexual. O site tem trechos de livros que fazem você ficar com vontade de comprá-los todos (bom, pelo menos é o que acontece comigo¿). Vale apenas dar ao menos uma espiada ; o endereço é www.correcotia.com.br.

Ontem eu peguei uma revista na sorveteria na qual batemos ponto toda semana. Uma revista legal, só sobre Barão Geraldo. Pra quem não sabe, Barão Geraldo é o distrito onde eu moro e onde fica a Unicamp ; é meio distante do centro de Campinas, mas pra mim, Barão é o que há de bom, tem de tudo aqui e o clima é uma mistura de cidade do interior com cidade universitária ; tem muita gente que defende a emancipação de Barão, mas acho que isso está longe de acontecer; em todo caso, só de gozação, eu costumo sempre dizer : "eu não moro em Campinas, eu moro em Barão", por causa disso, meu apelido agora é A Separatista. Enfim, adorei a revista, acho que vou assinar ; e um dia ainda edito uma revista assim. Se alguém tiver interesse em ler, deixo o endereço eletrônico : www.semana3.com.br.

Semana passada vi dois filmes do Woody Allen e adorei os dois. Um faz pate de um conjunto de três curtas chamado "Contos de Nova York" (os outros são do Scorcese e do Coppola, todos muito bons), e o outro chama-se "Zelig" e imita um documentário. "Zelig" é particularmente interessante, pelo formato, pelo humor refinado típico do diretor, pela crítica óbvia ululante à sociedade americana e pela atuação da Mia Farrow, que, para variar, desvia a atenção do personagem principal.

Guiom e João descobriram o Zé Ramalho e agora só escutam o cd duplo "Antologia Acústica". Fica chato porque eu tenho esse cd há anos e já escutei até dizer chega. Agora tenho que escutar de novo. Guiom acha o Zé genial, é o melhor cantor brasileiro do momento pra ele ; João diverte-se com as rimas. E eu me pergunto se sou só eu que às vezes acho o Zé inatingível¿ o que ele quer dizer com "não admito que me fale assim / eu sou o seu décimo-sexto pai" ou "disparo balas de canhão / é inútil pois existe um grão-vizir" ?

Dei um tempo na leitura de "O Povo Brasileiro" do Darcy Ribeiro e comecei a ler "Tonio Kroeger" do Thomas Mann ; estou gostando, é verdade, mas não entrará pra minha lista de favoritos. Apesar disso, senti especial empatia por alguns trechos:

E deixou a angulosa cidade natal, onde o vento soprava em volta das esguias cumeeiras, deixou o repuxo e a velha nogueira do jardim, os íntimos de sua infância, deixou também o mar que tanto amava e não sentiu mágoa com isso. Pois tinha crescido e ficara inteligente, compreendera o que se passava com ele e estava cheio de escárnio pela existência grosseira e baixa que por tanto tempo o segurara em seu meio.
Ele se entregou completamente ao poder que lhe parecia o mais elevado deste mundo, para os serviços aos quais se sentia destinado e que lhe prometiam grandeza e honra, ao poder do espirito e da palavra, que, sorrindo, reina sobre o mundo instintivo e mudo. Com seu jovem entusiasmo dedicou-se a ele, e este retribuiu-lhe com tudo o que tinha para presentear, dele tomando em pagamento, implacavelmente, tudo o que costuma exigir.
Aguçou o olhar, fazendo-o compenetrar-se das grandes palavras que enchem o peito do homem, descobriu-lhe as almas dos homens e a sua própria, deu-lhe clarividênia e mostrou-lhe o fim que está atrás das palavras e atos. Mas o que ele via era isto: comicidade e miséria ¿ comicidade e miséria.
Então veio a solidão, com o tormento e o orgulho da cognição, porque não se sentia bem no círculo dos inocentes com a alma alegre e obscura e estes, por sua vez, sentiam-se perturbados pelo sinal em sua testa. Mas a alegria nas palavras e nas formas se tornou cada vez mais doce para ele, pois costumava dizer (e já tomara nota disto) que o conhecimento da alma somente nos faria infalivelmente tristonhos, se o contentamento da expressão não nos coservasse acordados e alegres¿

quarta-feira, 30 de março de 2005

Mais uma vez decepciono quem apostou que eu iria abandonar o mundinho de uma vez por todas. A questão é que a vida em Campinas pegou o embalo e desceu rolando ladeira abaixo que nem uma pedrona enorme. Não, não estamos totalmente adaptados (no momento considero isso algo impossível de acontecer), mas caminhamos bem.

Descobrimos as vantagens de morar aqui: a quantidade e a qualidade de produtos e serviços e a facilidade de encontrá-los , a infra-estrutura bacana, a beleza da região, a proximidade de São Paulo e do Rio. Aproveitamos o quanto podemos; passamos o carnaval no Leblon e um sábado inteiro batendo perna na Avenida Paulista e no Parque do Ibirapuera. Assim, tudo isso é muito bom e tal, mas a saudade de João Pessoa e de todas as pessoas e coisas queridas é teimosa e cruel. Mais cruel ainda é uma possibilidade que posso vislumbrar no horizonte não tão distante: morar em Paris. Tudo bem, eu sabia que esse dia iria chegar, mas parece que ele vai chegar em menos tempo do que eu esperava. Aguardem mais detalhes no próximo capítulo.

João ama a nova escola. Três vezes por semana fica o dia todo lá e eu morro de saudade mas fico um pouco mais livre. Tem aula de música, expressão corporal, culinária, costura e ginástica olímpica; escola bacana é apelido. Apesar disso há alguns pontos nevrálgicos. É uma escola cara, cara pra caramba. Isso faz com que ele só conviva com riquinhos mimados (salvo raras exceções), o que me preocupa muito. Já sofreu discriminação algumas vezes por ser nordestino e eu fiquei uma fera. Agora todo mundo na escola tem medo de mim, hehehe. Mas ele gosta de lá, fez amigos e está feliz, é o mais importa, é o que vale.

Tenho feito longas caminhadas em um parque perto da nossa casa. Depois de andar quatro quilômetros dentro da mata me sinto bem, renovada, e aí nem parece que estar nessa cidade nem é tão ruim assim. Tenho praticado yoga também e finalmente consigo encontrar um pouco de calma e equilíbrio no turbilhão que foi a minha vida nos últimos tempos.

Estou ouvindo Franz Ferdinand e curtindo horrores. É pop demais, eu sei, e eles são uns metidos, eu também sei, mas o som é bom e quem quiser que fale mal que eu não tou nem aí. Estou lendo "O Povo Brasileiro" do Darcy Ribeiro; dizem que ele está ultrapassado mas eu sempre tive vontade de ler esse livro. Bem, e filmes, tenho visto um monte... Guiom disse que os filmes que eu gosto são sorvete de morango mas eu não me incomodo com esse tipo de insulto bobo e por isso vou recomendar algumas coisinhas pra vocês: "Queimando ao Vento", suíço; "As Bodas", russo; "Uma Relação Pornográfica", francês; 'Bem-vindos", sueco; "Terra dos Sonhos", americano. Não lembro os nomes dos diretores mas acho que não tem problema. Ah, e se houver cineclube na casa de alguém não me contem pra eu não morrer intoxicada com a inveja.

As últimas perguntas de João são meio antigas mas valem ser lidas:
- Minha escola tem seis mil metros quadrados, né? E metros redondos, tem quantos?
- Mãe, antes de eu ser bebê, eu era um macaco? (Tentando entender a Teoria da Evolução das Espécies)

Por enquanto é isso queridos amigos... saibam que estou roxa de saudades de todos vocês e sintam-se infinitamente beijados e abraçados com carinho!